
O início do ciclo de queda dos juros no Brasil já tem data no radar: março. A ata mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) reforçou a leitura de que o Banco Central está preparado para iniciar a flexibilização, mas deixou claro que o processo será conduzido com cautela. Em um cenário de inflação mais comportada, porém com mercado de trabalho ainda aquecido e incertezas fiscais no horizonte, o ritmo dos cortes dependerá, sobretudo, da evolução dos dados econômicos.
Divulgada no início de fevereiro, a ata do Copom consolidou a expectativa do mercado de que a Selic começará a cair na próxima reunião. O documento reconhece avanços no cenário inflacionário e um ambiente externo mais benigno no curto prazo, mas evita qualquer sinalização firme sobre a magnitude do ciclo. A mensagem central é clara: haverá corte, mas sem pressa.
Para economistas, o tom do texto foi considerado neutro e eficaz em ancorar expectativas. Caio Megale, economista-chefe da XP, avalia que a ata “reforça a orientação de um ciclo de flexibilização monetária cauteloso”, condicionado à confirmação do cenário projetado. A estratégia do Banco Central é evitar movimentos que possam ser interpretados como excessivamente dovish pelo mercado.
O principal ponto de atenção segue sendo o mercado de trabalho. O Copom destaca que a renda real média cresce acima da produtividade, impulsionando o consumo e pressionando os preços de serviços, justamente o componente mais sensível da inflação. Para o BC, essa dinâmica dificulta a convergência plena da inflação à meta de 3% e exige vigilância redobrada.
Segundo o economista Gustavo Sung, esse fator deve pesar nas próximas decisões. A preocupação está nos serviços intensivos em mão de obra, diretamente impactados por um mercado de trabalho ainda aquecido. Enquanto esse quadro persistir, a autoridade monetária tende a manter uma postura conservadora, mesmo diante da desaceleração dos índices de inflação.
No cenário externo, o Banco Central reconhece um ambiente menos adverso, com commodities mais estáveis e condições financeiras globais mais favoráveis. No entanto, no front doméstico, o fiscal continua sendo um elemento-chave. Analistas avaliam que um sinal mais claro de austeridade para os próximos anos ajudaria a ancorar expectativas e abrir espaço para cortes mais consistentes no futuro.
As projeções do mercado convergem para um ciclo gradual. Parte dos economistas aposta em cortes iniciais de 25 pontos-base, enquanto outros defendem reduções de 50 pontos-base já em março. Em comum, há a percepção de que o Copom buscará “serenidade” para conter um otimismo excessivo nas curvas de juros. Mesmo com a flexibilização, a taxa real deve seguir elevada, refletindo os desafios fiscais e a complexidade do cenário econômico brasileiro em 2026.
Fonte: Infomoney