
Após 26 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia avançou decisivamente com o aval político europeu, recolocando o tema no centro do debate econômico brasileiro. A assinatura, em janeiro, em Assunção, simboliza um marco diplomático, mas a entrada em vigor ainda dependerá de ratificações internas e poderá enfrentar resistências políticas, especialmente de setores agrícolas europeus e de movimentos que defendem maior rigor ambiental.
O tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 718 milhões de consumidores e um PIB estimado em US$ 22 trilhões. Além da redução gradual de tarifas para bens industriais e agrícolas, o acordo incorpora capítulos considerados modernos, como sustentabilidade, compras governamentais, propriedade intelectual e novas tecnologias. Na prática, abre oportunidades relevantes, mas também impõe às empresas brasileiras o desafio de atender a padrões regulatórios e ambientais entre os mais exigentes do mundo.
Na indústria, a repercussão foi imediata. A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) classificou o acordo como estratégico para reposicionar o setor em cadeias globais de maior valor agregado, com estímulo à inovação, à bioeconomia e à transição para uma indústria de baixo carbono. Ao mesmo tempo, o setor reconhece que a adaptação exigirá investimentos elevados em rastreabilidade, certificações e governança, transformando a conformidade regulatória em fator central de competitividade.
A cadeia têxtil e de confecção também vê o acordo como uma janela de oportunidades, sobretudo para ampliar exportações, cooperação tecnológica e alinhamento a agendas de sustentabilidade e economia circular. A ABIT, no entanto, adota um tom pragmático: a abertura do mercado pode intensificar a concorrência com produtos europeus de maior valor agregado, exigindo ganhos de produtividade, inovação em design e materiais técnicos para que o setor brasileiro capture os benefícios do pacto.
No varejo, os efeitos tendem a ser ambíguos. A redução tarifária deve tornar produtos europeus mais competitivos no Brasil, pressionando preços em categorias como vestuário, cosméticos e bens duráveis. Por outro lado, a maior facilidade de exportação pode redirecionar parte da produção nacional ao mercado externo, gerando volatilidade de oferta e impacto pontual sobre preços internos. No agronegócio, o acordo é visto como positivo, mas cercado de cautela, diante do risco de barreiras não tarifárias, exigências ambientais rigorosas e salvaguardas para proteger produtores europeus.
Para o governo e instituições como a ApexBrasil, o acordo representa um movimento estratégico em um cenário global mais fragmentado, com potencial de elevar exportações, atrair investimentos e integrar o Brasil a cadeias produtivas de maior densidade tecnológica. O consenso, porém, é que o impacto econômico não será automático.
Mais do que a assinatura, o verdadeiro divisor de águas será a capacidade das empresas brasileiras de transformar o texto do tratado em estratégia, produtividade e conformidade regulatória para competir em um novo jogo global.
FONTE: Brazil Economy