
O 26º Edelman Trust Barometer, considerado um dos estudos mais abrangentes sobre confiança em escala global, revela que a confiança social atingiu um ponto crítico. A insularidade, tendência de desconfiar e se retrair diante do diferente, consolidou-se como um dos principais desafios para as sociedades e economias ao redor do mundo.
Com base em entrevistas online com quase 34 mil pessoas em 28 países, a pesquisa aponta que 70% dos entrevistados hesitam ou se recusam a confiar em indivíduos com valores, origens, fontes de informação ou formas de pensar diferentes das suas. Essa tendência é ainda mais acentuada em mercados desenvolvidos, como Japão (90%), Alemanha (81%) e Reino Unido (76%).
O relatório destaca que a insularidade vai além da polarização política ou ideológica. Trata-se de um retrocesso no diálogo, na diversidade e na colaboração social, à medida que populações se fecham em “bolhas de confiança”, priorizando relações com pessoas e instituições semelhantes a si. Esse movimento simboliza a substituição do senso coletivo do “nós” por uma lógica cada vez mais individualista, centrada no “eu”.
O pessimismo em relação ao futuro também se intensificou. Apenas 32% dos entrevistados acreditam que a próxima geração viverá em condições melhores, com índices particularmente elevados de descrença em países como França, Alemanha, Canadá e Estados Unidos.
A pesquisa registra ainda uma grave erosão da confiança nas instituições tradicionais. Governos, mídia e lideranças políticas enfrentam quedas significativas de credibilidade, enquanto empresas e empregadores locais emergem como as instituições mais confiáveis para uma parcela expressiva da população.
Outro ponto de atenção é a crise de informação. Cerca de 65% dos participantes temem que atores estrangeiros disseminem desinformação para aprofundar divisões internas, ao passo que apenas 39% afirmam consumir regularmente notícias de fontes com visões divergentes. O cenário reflete uma realidade fragmentada, na qual consensos básicos sobre fatos e verdade tornam-se cada vez mais difíceis de construir.
A insularidade também impacta diretamente decisões econômicas e organizacionais. Em países como Canadá, Japão e Alemanha, a confiança em empresas nacionais supera de forma significativa a depositada em companhias estrangeiras, criando obstáculos para multinacionais e para o fluxo de investimentos internacionais.
No ambiente corporativo, os valores individuais ganham peso crescente. O estudo mostra que 42% dos trabalhadores preferem mudar de departamento a trabalhar sob a liderança de um gestor com valores divergentes, evidenciando desafios concretos para políticas de diversidade, inclusão e gestão de pessoas.
Diante desse cenário, o relatório identifica uma oportunidade estratégica: o papel das organizações como “corretoras de confiança”. Empregadores e CEOs passam a ser vistos como agentes centrais na reconstrução de pontes entre grupos fragmentados, com responsabilidade direta na promoção do diálogo, da inclusão e de estratégias de engajamento mais amplas.
Nesse contexto, as empresas são chamadas a atuar não apenas como agentes econômicos, mas também como facilitadoras da coesão social, ouvindo diferentes vozes e engajando-se de forma crítica e transparente com colaboradores e comunidades.
O Edelman Trust Barometer 2026 traça, assim, um retrato desafiador do mundo contemporâneo. Em meio a incertezas econômicas, pressões tecnológicas e fragmentação informacional, avançam a desconfiança e o retraimento social. A superação desse quadro, segundo o relatório, dependerá da capacidade de líderes públicos e privados de estimular abertura, diálogo e reconexão entre diferentes grupos, uma agenda urgente para governos, empresas e a sociedade civil.