
A consultoria alemã Roland Berger apresentou um diagnóstico animador para o Brasil: o país tem condições de dobrar o ritmo de crescimento do PIB, passando dos atuais cerca de 2% ao ano para 4%, e assim se tornar a quinta maior economia do planeta até 2050. Esse caminho passa por resolver entraves internos que a consultoria resume como “colocar a casa em ordem”.
Os gargalos que travam o país
O estudo aponta que os principais obstáculos não vêm do cenário externo, mas de dentro de casa: a trajetória da dívida pública, hoje próxima de 82% do PIB, mantém os juros elevados; a produtividade segue baixa; a gestão pública é pouco eficiente; e a educação básica ainda deixa a desejar.
A consultoria descreve um efeito cascata: o próximo governo pode reduzir a relação dívida/PIB, os juros cairiam e abririam espaço para investimentos. O envelhecimento da população reforça essa tendência e poderia elevar a taxa de investimento dos atuais 17% do PIB para mais de 20%, patamar necessário para o país aproveitar oportunidades em agronegócio, energia, minerais e água.
PIB de US$ 6 trilhões
O Brasil alcançaria, nesse cenário, um PIB real de US$ 6 trilhões em 2050, com renda per capita próxima de US$ 28 mil — patamar comparável ao de Grécia, Portugal, Polônia e Coreia do Sul. A Roland Berger classifica isso como a transição de uma economia em desenvolvimento para uma economia desenvolvida em apenas uma geração.
William Jones, consultor sênior da Roland Berger, defende que o ponto de partida precisa ser fiscal: recuperar o grau de investimento permitiria ao país acessar juros mais baixos e prazos mais longos, algo já comum no resto do mundo desenvolvido. Ele reconhece que o tema é politicamente sensível, mas o considera inevitável.
Gestão pesa mais que orçamento
O estudo defende que ajuste fiscal e bons resultados sociais não precisam ser excludentes, desde que haja avanço na gestão pública. Pedro Pacheco Guimarães, presidente da Roland Berger no Brasil, cita a educação: os Estados com melhores resultados não são necessariamente os que gastam mais.
O Ceará obteve, segundo o relatório, a segunda maior nota do país no Ideb em 2023, mesmo sendo um dos Estados mais pobres, superando São Paulo e Rio de Janeiro. Alagoas também é citado como exemplo, ao sair da última posição no Ideb para a média nacional em apenas dez anos — prova, segundo a consultoria, de que excelência educacional é mais questão de gestão do que de dinheiro.
O papel da iniciativa privada
A Roland Berger recomenda ampliar parcerias público-privadas e concessões, para que a iniciativa privada assuma investimentos que o setor público não consegue bancar. Guimarães cita o Marco Legal do Saneamento Básico, de 2020, cujos investimentos saltaram de US$ 500 milhões para US$ 5 bilhões anuais após a nova regulação.
A Roland Berger encerra o relatório com um recado de otimismo cauteloso: as barreiras que travam o Brasil são reais, mas não intransponíveis, e superá-las depende de gestão e política econômica, não de sorte.
Fonte: Valor Econômico


