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Investidores globais com sustentabilidade na pauta

  Lélio Lauretti, um dos sócio-fundadores e professor do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, comenta importância atribuída à sustentabilidade por grandes investidores.   A Blackrock, maior gestora de investimentos do…

 

Lélio Lauretti, um dos sócio-fundadores e professor do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, comenta importância atribuída à sustentabilidade por grandes investidores.

 

A Blackrock, maior gestora de investimentos do mundo, divulgou em meados de janeiro sua carta anual aos CEOS – tida como termômetro dos temas que costumam ditar os rumos do grande capital. Neste documento, declarou que a sustentabilidade deve ser o novo padrão de investimento e informou que o risco ESG (dimensões ambientais, sociais e de governança) será analisado para investimentos com o mesmo rigor dos riscos de crédito e liquidez.

Em entrevista ao blog da Expogestão, Lélio Lauretti, uma das maiores autoridades em Governança Corporativa e palestrante da Expogestão 2019, comenta este novo viés do capitalismo.

Qual a importância deste posicionamento da Blackrock?

Esta é a grande notícia para o século XXI, porque sem dúvida nenhuma os últimos dez ou quinze anos foram os melhores da história da humanidade. Se a gente ficar focado em diversidade e diferença de renda a gente vai chegar a conclusões diferentes, mas se pegar os pontos que efetivamente interessam, como a diminuição rápida da pobreza do mundo, conscientização importância da sustentabilidade e tratamento inteligente para os movimentos migratórios, as boas notícias garantem que a humanidade está no caminho certo.

Empresas brasileiras já dão a mesma relevância às dimensões ambientais, sociais e de governança que dão para as econômicas e financeiras?

Ainda não, só que teremos que ser tranquilos. Estamos ao mesmo tempo envolvidos com a questão da inovação, disruptiva, sequencial, etc. em que os ciclos são muito curtos. As mudanças culturais são ciclos geralmente longos ou muito longos. Veja a história da escravidão: foram milênios antes que a humanidade concluísse que ela deveria ser abolida. O que está acontecendo é que as mudanças estão aí e são impulsionadas por um fator novo, em termos de grandeza histórica, que é o mundo conectado. Se nós lembrarmos que a partir da internet e das redes sociais o mundo está conectado a tendência é a criação de uma opinião pública mundial, que vai ser comandada por uma maioria de pessoas de bem. Com isso se torna impossível manter os atuais desequilíbrios que existem na sociedade, onde de um lado existe um desperdício estúpido de recursos, que pode até ser tomado como símbolo de sucesso econômico, e de outro gente morrendo de fome. Essas ofensas à lógica vão passar rapidamente. Vamos fazer o que as pessoas inteligentes devem fazer. Aproveitar tudo o de bom que foi desenvolvido no século XX, nas áreas de direito humanos, medicina, ciências, pesquisas, etc. e não cair na asneira de repetir os erros cometidos no século passado, como as guerras e o mundo dominado por um país só, com uma hegemonia econômica, cultural, política e militar que se criou a partir da segunda grande guerra. Os países de menores rendas precisam ter mais oportunidades de progressos na área econômica e de direitos humanos.

O capitalismo está mudando?

Uma coisa que me anima muito é que o conceito de capitalismo está passando por uma mudança radical; antes era só dinheiro, poder econômico; hoje são todos os capitais que justificam a boa governança de uma empresa: o capital intelectual, o humano, o de relacionamento, o ambiental, o tecnológico, o político. Esta transição do capitalismo econômico para um capitalismo multisentido, com todos os capitais que contribuem para que uma empresa seja uma entidade efetivamente positiva e construtiva nos destinos da humanidade estão postos sobre a mesa.

Eu acredito firmemente que a corrupção entrou em estágio de extinção; não existe corrupção sem sigilo absoluto e este morreu de velho.

Como estão os indicadores de sustentabilidade e governança das empresas brasileiras?

Eu vou publicar um artigo no próximo número da Revista Relações com Investidores. Eu peguei o Prêmio Exame de Sustentabilidade e separei umas vinte empresas que estão fazendo coisas admiráveis das quais não se cogitava anteriormente, como cursos para liderança feminina; preparam o retorno ao trabalho das mulheres que saem da maternidade, através de home office e horários específicos, empresas que estão financiando programas de fertilização para mulheres que não têm filhos. São apenas uma mostra do que está acontecendo, felizmente, nessa nova sociedade. Nós tivemos o século da economia, que criou o mundo com esta desigualdade brutal; agora nós estamos entrando no século da ética, da lógica, da boa vontade, porque as pessoas, na sua esmagadora maioria, são pessoas de bem, que tem como participar nas redes sociais.

Bons indicadores de governança interferem na sustentabilidade?

Claro que sim. A governança é gestão empresarial no estado da arte mais princípios éticos. Entre eles estão consagrados a transparência, a equidade, a prestação de contas e a responsabilidade corporativa. Dentro da responsabilidade corporativa tem a responsabilidade sócio-ambiental. A empresa tem que contribuir para que ela seja um elemento decisivo na visão de sustentabilidade da sociedade, o que não tem nenhum impacto negativo na atividade dela. Sustentabilidade econômica, social e ambiental torna a empresa viável no longo prazo.

O ano de 2020 terá eleições municipais sem a participação de capital das empresas. Quais os desafios da governança neste cenário?

A governança não é só uma questão de bons princípios, ela também requer controles rígidos para que os princípios sejam seguidos. Estamos falando de compliance. Este mecanismo cuida dos riscos a que a empresa está sujeita e faz com que todas as normas e regulamentos internos, inclusive código de conduta, sejam fielmente observados e que, com isso, se concretize uma cultura ética na organização.