
Análise de Ricardo Amorim, considerado o economista mais influente do Brasil – e que foi palestrante da ExpoGestão 2017 – as políticas públicas brasileiras enfrentam um evidente problema de coerência. O país vive um paradoxo: a taxa de desemprego caiu para 5,2%, o menor nível de toda a série histórica. Ao mesmo tempo, os gastos com seguro-desemprego continuam crescendo e batendo recordes. Nos 12 meses encerrados em novembro, os desembolsos ultrapassaram R$ 57 bilhões — valor significativamente superior aos R$ 47 bilhões registrados em 2022, quando o desemprego era muito mais elevado.
Como explicar essa contradição?
Há duas razões principais. A primeira é metodológica. O conceito de desemprego utilizado para calcular a taxa oficial não é o mesmo critério utilizado para a concessão do seguro-desemprego. Para ser considerada desempregada nas estatísticas, a pessoa precisa não apenas estar sem trabalho, mas também estar procurando emprego. Quem não busca trabalho não entra na taxa de desemprego — ainda que esteja sem ocupação.
A segunda razão está nas falhas estruturais do desenho dos programas sociais. Grande parte dos benefícios é condicionada à ausência de emprego formal. Isso cria distorções e incentivos inadequados, estimulando a informalidade ou a permanência fora do mercado formal de trabalho. Hoje, milhões de beneficiários de programas de transferência de renda não trabalham formalmente, não aparecem nas estatísticas de desemprego e, em alguns casos, acumulam diferentes benefícios.
A expansão da informalidade agrava o problema. Quase metade dos trabalhadores brasileiros atua sem registro formal. Muitos deles têm acesso a programas sociais, mas não contribuem para a previdência. Isso pressiona o déficit previdenciário e compromete o equilíbrio do sistema, afetando justamente aqueles que contribuíram ao longo de toda a vida laboral.
Além disso, reajustes do salário-mínimo acima da inflação elevam automaticamente diversas despesas públicas, já que vários benefícios são vinculados a esse piso. O problema central não é apenas o volume de gastos, mas a sua eficiência.
O Brasil destina uma parcela significativa do PIB à proteção social — cerca de 16,8%. Trata-se de proporção superior à média de muitos países desenvolvidos. No entanto, os resultados obtidos são inferiores.
O país não enfrenta apenas um problema de gasto elevado, mas de alocação ineficiente de recursos. Com melhor focalização e desenho institucional adequado, seria possível reduzir pobreza e desigualdade com muito mais efetividade. As consequências desse modelo são claras: carga tributária elevada e contas públicas pressionadas.
Fonte: Ricardo Amorim, 25/02/2026


