
A resiliência tornou-se uma das competências mais valorizadas no ambiente corporativo. Espera-se que profissionais saibam lidar com mudanças, pressão, incerteza e momentos difíceis. O problema começa quando essa competência passa a ser tratada como resposta para situações que não deveriam ser permanentes.
Se tudo é urgente, as prioridades mudam continuamente, as equipes trabalham no limite e a disponibilidade precisa ser constante, pedir mais resiliência pode significar pedir que as pessoas tolerem melhor um problema que deveria ser enfrentado pela organização.
A pergunta, portanto, não é se profissionais precisam ser resilientes, mas até onde cabe ao indivíduo adaptar-se — e a partir de que ponto cabe à empresa redesenhar o trabalho.
Quando o problema está no trabalho — e não apenas na pessoa
O modelo desenvolvido por Christina Maslach e Michael Leiter organiza seis áreas do contexto de trabalho relacionadas ao burnout: carga, controle, reconhecimento, comunidade, justiça e valores. A proposta desloca o olhar do indivíduo para a relação com a organização e mostra que o desgaste também pode estar relacionado à forma como o trabalho é estruturado.
Essa sobrecarga nem sempre aparece no número de horas trabalhadas. Pode estar na fragmentação da atenção, provocada por reuniões, mensagens, interrupções e mudanças constantes de prioridade.
A discussão sobre limites também aparece no trabalho de Izabella Camargo, que defende a ideia de produtividade sustentável: produzir com equilíbrio, sem transformar o excesso de trabalho em condição permanente para alcançar resultados.
A inteligência artificial acrescenta outra camada a essa discussão. Se uma tecnologia reduz o tempo necessário para executar uma tarefa, o ganho de produtividade precisa necessariamente se transformar em mais tarefas? Ou pode abrir espaço para atividades de maior valor, julgamento e criatividade?
O Work Trend Index 2026, da Microsoft, aponta justamente para essa transformação: à medida que agentes de IA assumem parte da execução, as organizações precisam repensar como o trabalho é estruturado e como as pessoas utilizam esse novo espaço de atuação.
Resiliência também é uma característica da organização
Uma revisão de 69 estudos que investigaram empiricamente a resiliência organizacional, conduzida por Kijan Vakilzadeh e Alexander Haase, identificou diferentes fatores que ajudam as empresas a antecipar, enfrentar e se adaptar a situações adversas, entre eles liderança, recursos, cultura, inovação, aprendizagem e capacidade de mudança.
A conclusão ajuda a ampliar a discussão: a resiliência organizacional não está apenas na capacidade das pessoas de lidar com crises, mas também nos recursos, processos, estruturas e práticas que permitem à empresa responder a situações de pressão e mudança.
Uma organização resiliente, portanto, não é aquela que reúne pessoas capazes de suportar qualquer nível de pressão, mas aquela que consegue responder aos problemas sem depender permanentemente dessa capacidade.
Isso envolve rever prioridades, redistribuir cargas de trabalho, aprimorar processos e adaptar estruturas. Também significa criar condições para que problemas sejam identificados e discutidos antes que se transformem em crises.
Nesse sentido, a segurança psicológica, conceito estudado por Amy Edmondson, cria condições para que as pessoas levantem dúvidas, admitam erros e tragam problemas sem medo de consequências negativas — um aspecto importante para a aprendizagem e a melhoria organizacional.
A resiliência individual continua sendo uma competência valiosa, mas não substitui a responsabilidade da organização pelas condições em que o trabalho acontece. Talvez a pergunta que as lideranças devam fazer não seja apenas: Como podemos tornar nossas pessoas mais resilientes? Mas também: O que estamos fazendo para que elas não precisem ser resilientes o tempo todo?
Preparar pessoas para enfrentar situações difíceis faz parte da gestão. Construir uma organização capaz de não transformar toda adversidade em rotina também.
Fontes:
Christina Maslach e Michael Leiter
Seis áreas da vida profissional: um modelo do contexto organizacional do burnout – PubMed
Burnout em evidência: como medi-lo? – ABRH-SP
Izabella Camargo
TEDx — palestra sobre limites e produtividade sustentável
Microsoft Work Trend Index 2026
Microsoft — Work Trend Index 2026
Kijan Vakilzadeh e Alexander Haase
Os blocos de construção da resiliência organizacional: uma revisão da literatura empírica – ScienceDirect
Amy Edmondson
SAGE Journals — estudo sobre segurança psicológica e aprendizagem


