
A inteligência artificial está entrando em um território que, até há pouco tempo, parecia essencialmente humano: o da criação.
Na moda, essa mudança já é concreta. A Audaces lançou o LooksMaker, ferramenta de IA generativa que transforma referências visuais em propostas de peças, permite testar detalhes, visualizar o caimento em um corpo virtual e automatizar desenho e ficha técnica. Segundo a empresa, testes com clientes de diferentes portes e países apontaram ganho de 90% no tempo de criação.
Mas o mais interessante não é o número. É a lógica por trás dele: testar antes de produzir.
Com IA e modelagem 3D, uma ideia pode ser visualizada, modificada, comparada e descartada antes de virar um protótipo físico. A pergunta deixa de ser apenas “como produzir?” e passa a ser “precisamos mesmo produzir isso para descobrir se funciona?”.
A mudança parece operacional, mas é muito mais profunda. Se uma empresa consegue testar dezenas de possibilidades em minutos, a criatividade deixa de ser apenas uma questão de execução. E isso muda o valor das pessoas dentro do processo.
Na ExpoGestão 2026, Ricardo Ramos, da Audaces, apresentou um exemplo dessa transformação ao mostrar como um designer sem formação em programação conseguiu desenvolver e lançar um produto em 15 dias utilizando ferramentas de IA.
O caso revela algo maior do que velocidade: novas capacidades começam a chegar às mãos de quem antes dependia de especialistas para acessá-las. Isso amplia o espaço para experimentar. Mas também cria um paradoxo.
Quando executar deixa de ser o gargalo
Quanto mais barato fica gerar uma alternativa, menos valor existe na alternativa isoladamente.
Quando produzir possibilidades deixa de ser o principal obstáculo, o diferencial migra para outro lugar: repertório, contexto, identidade, senso crítico e capacidade de decisão.
É possível pedir à IA centenas de possibilidades para uma campanha. O que ganha importância é reconhecer qual delas tem algo a dizer — e quais são apenas variações bem executadas do que já existe.
Essa mudança aparece também na moda. Uma pesquisa da Vogue Business com mais de 300 profissionais e estudantes de moda e beleza mostrou percepções divididas sobre o impacto futuro da IA nas carreiras: 43% se declararam positivos ou muito positivos, 32% negativos ou muito negativos e 25% ainda estavam neutros sobre o assunto. A discussão ultrapassa produtividade e tecnologia: envolve formação, funções e o próprio valor do trabalho criativo.
Para as empresas, isso traz uma pergunta mais incômoda: ensinar equipes a usar IA será suficiente? Talvez o desafio mais profundo seja formar profissionais capazes de julgar melhor aquilo que a IA produz.
Porque uma organização capaz de gerar mil possibilidades, mas incapaz de escolher entre elas, não se tornou necessariamente mais criativa. Tornou-se apenas mais rápida.
A tecnologia pode ampliar o espaço de experimentação. Mas repertório, identidade, visão estratégica e ponto de vista continuam sendo necessários para transformar possibilidade em direção.
Adriana Hoppenbrouwer-Pereira, cofundadora e diretora da The Fabricant, resume que, diante da capacidade de geração da tecnologia, a criatividade passa cada vez mais pela “escolha” e pelo “critério”.
E essa talvez seja uma das mudanças mais importantes para a liderança. Quando a tecnologia torna a criação abundante, o trabalho mais valioso deixa de ser produzir mais e passa a ser decidir melhor.
No fim, a pergunta não é se a máquina consegue criar. É se as empresas estão preparadas para decidir o que merece ser criado.
Fontes:
NSC Total
Carta Capital


