
Jonas Tilp e Mário Sant’Ana abordaram competitividade, inovação e ativação sistêmica de valor.
Empresas perdem competitividade não por falta de recursos, mas por não ativar o que já possuem. Foi esse o argumento central da palestra “Transformando Ativos Ociosos em Valor”, na ExpoGestão 2026, com o empreendedor e conselheiro Jonas Tilp e o fundador do Projeto Resgate, Mário Sant’Ana.
Tilp abriu a palestra situando o conceito antes mesmo de nomeá-lo: para ele, Santa Catarina já opera como um exemplo vivo de ativos mobilizados. O estado responde por apenas 1,1% do território nacional, mas ocupa a sexta posição em PIB do Brasil, é o terceiro maior exportador de produtos industrializados e concentra a maior produção de suínos e a segunda maior de frangos do país — números que, segundo ele, só se sustentam por uma cultura de associativismo herdada das colônias de imigração.
“As empresas que se preocupam só com o dinheiro que elas produzem são empresas pobres. As empresas que se importam com os valores que elas deixam são as que constroem a história”, diz o empreendedor.
O que é ativo ocioso
Ativo ocioso, segundo Sant’Ana, é todo recurso econômico que existe mas não entrega seu potencial máximo. “A diferença entre o que o recurso entrega hoje e aquilo que ele pode vir a entregar“, explica. A receita para destravar esse potencial, segundo o palestrante, está na mobilização, conexão e orientação dos recursos disponíveis.
O palestrante recorreu a duas histórias de Santa Catarina para mostrar a tese na prática. A primeira é a do município de Ouro, no oeste catarinense, dependente da suinocultura e afetado por uma seca em 2006. Em vez de protestar, moradores decidiram perfurar um poço de meio quilômetro de profundidade em busca de água. Encontraram um recurso natural inesperado: a água emergiu a 36°C. A descoberta deu origem ao balneário Termas de Ouro, hoje administrado pelos próprios moradores que financiaram a perfuração.
A segunda é a do Colégio Bom Jesus (atual Colégio Bonja), em Joinville. Em 1961, a unidade enfrentava o fechamento do ensino médio por déficit financeiro, com apenas 54 alunos matriculados. Empresários locais negociaram com a prefeitura um modelo de cofinanciamento, ajustaram mensalidades e garantiram bolsas para quem não pudesse pagar. O ensino médio não fechou, e a escola foi posteriormente transferida para a comunidade evangélica, consolidando-se como instituição até hoje ativa na cidade.
Para Sant’Ana, o ponto em comum entre os dois casos é a disposição das pessoas envolvidas para conversar e buscar soluções coletivas com efeito de longo prazo. “Ninguém faz isso para resolver o problema do trimestre”, afirma.
Projeto Resgate
O Projeto Resgate, organização social com 28 anos de atuação em Joinville, aplica essa lógica por meio de uma metodologia própria que combina duas referências internacionais: a Teoria U, desenvolvida no MIT, e o Design Thinking, criado em Stanford. O programa funciona em três frentes — ensino médio, ensino superior e dentro de empresas — sob o nome Think Tank.
Na versão para ensino superior, batizada de Think Tank Lab, equipes de seis a oito estudantes trabalham com apoio de mentores para resolver desafios reais propostos por empresas parceiras. Atualmente, cinco companhias participam do programa na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC): Act, Docall, Pollux, Porto Itapoá e Tecnoperfil. Tilp é um dos mentores master que já atuaram em edições do programa.
O processo segue etapas estruturadas: imersão no contexto da empresa, identificação da causa raiz do problema, ideação de soluções e, por fim, prototipagem testada na prática — não em apresentações teóricas. Segundo Sant’Ana, o objetivo é formar o que ele chama de “profissional formato T”: alguém com profundidade técnica (hard skills) aliada à capacidade de se conectar com outras áreas (soft skills).
O convite para empresas e profissionais
Ao retomar a palavra para o encerramento, Tilp reforçou que o desafio não é mais identificar os ativos disponíveis no território, mas garantir que sejam mobilizados antes que se percam. Ele citou o caso do aeroporto de Joinville, que voa com tarifas mais baixas justamente porque os voos saem lotados, mas enfrenta dificuldade para manter rotas por falta de demanda sustentada — exemplo, segundo ele, de um ativo que só sobrevive se for ativamente defendido pela comunidade local. Para Tilp, esse é o tipo de compromisso que separa empresas e profissionais que geram legado daqueles que apenas observam oportunidades passarem.


