
Rodrigo Bauce reuniu lições sobre hedge, crédito e liquidez para ajudar empresas a atravessar crises internacionais
Empresas que avaliam risco de câmbio, crédito e liquidez de forma isolada ficam mais expostas a choques externos, afirmou Rodrigo Bauce, sócio líder em riscos financeiros da KPMG, em palestra na ExpoGestão sobre resiliência financeira no cenário global.
Com mais de 20 anos de atuação na consultoria, Bauce defende que as empresas adotem uma análise integrada dos riscos, especialmente diante de conflitos internacionais e movimentos políticos que hoje pesam tanto quanto os fundamentos econômicos sobre câmbio, juros e preços de commodities.
Um dos equívocos mais comuns entre exportadores, segundo Bauce, é confundir proteção com especulação. O hedge existe para mitigar incerteza, não para gerar ganho extra. Empresas que expõem o caixa à variação cambial esperando lucrar estão especulando, não se protegendo, e ficam vulneráveis a um “cisne negro”: evento extremo e imprevisível capaz de comprometer toda a operação.
Questionado se as mesmas regras valem para negócios menores, Bauce citou pesquisa da KPMG com 25 das maiores empresas não financeiras do país. Para ele, o porte não muda a natureza do risco: quem toma dívida em dólar ou exporta commodities enfrenta exposição parecida, qualquer que seja o tamanho do balanço. A diferença é que grandes empresas são pressionadas por reguladores a agir; as menores, sem essa cobrança, costumam deixar a gestão de risco em segundo plano.
Planilhas tradicionais concentram conhecimento em uma única pessoa e viram um problema quando esse profissional deixa a empresa: fórmulas ficam sem explicação e ninguém se arrisca a apagá-las. Inteligência artificial e automação, disse Bauce, já permitem tratar dados e simular cenários com mais agilidade, reduzindo a dependência de controles manuais.
O exemplo de Warren Buffett
Bauce citou o investidor Warren Buffett, que avalia empresas pela capacidade de honrar compromissos no longo prazo e prefere negócios com baixo custo de inovação e caixa consistente, caso da Coca-Cola. O exemplo mostra que qualquer empresa, não só gigantes de capital aberto, precisa de política clara sobre como reter e usar caixa.
Bauce lembrou ainda que o Brasil tem acesso privilegiado a dados do Banco Central, da B3 e da Anbima, algo que não existe com a mesma qualidade em outros países da América Latina. O desafio das empresas, para ele, não é a falta de informação, e sim o uso estratégico dela.
Hedge, avaliação de crédito e disciplina de caixa, concluiu Bauce, deixaram de ser temas isolados de tesouraria e passaram a integrar decisões estratégicas de qualquer empresa exposta a câmbio, juros ou preços de commodities, independentemente do porte.


