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03/06/2026

Método contra o curto prazo: como indústrias catarinenses estão inovando com mais rigor e menos improviso

Programa da Academia FIESC de Negócios em parceria com o BRDE integra planejamento estratégico, desenvolvimento de produto e crédito subsidiado 

A pressão pelo resultado imediato impede que a maioria das empresas industriais desenvolva produtos de maior valor agregado. O diagnóstico não é novo, mas a solução que o professor Marcelo Ferreira Guimarães, da Academia FIESC de Negócios, apresentou na ExpoGestão 2026 tem resultado mensurável: taxa interna de retorno entre 60% e 170% nos projetos desenvolvidos por 15 empresas ao longo de quatro turmas do programa DPIN — Desenvolvimento de Produtos Inovadores para a Neoindustrialização.

“O problema central é a armadilha do H1”, disse Marcelo, referindo-se ao conceito de horizontes de gestão. No H1, o foco é o resultado de curto prazo. No H2, estão as novas plataformas de produto, com retorno financeiro mais alto e risco gerenciável. O que o programa propõe é justamente ajudar empresas a escapar do primeiro para investir no segundo — sem abandonar a operação do dia a dia.

O problema da desconexão

Marcelo identificou um padrão recorrente: o plano estratégico existe, mas não está conectado ao processo de desenvolvimento do produto. “As empresas colocam o plano estratégico na parede com suas metas, e o pessoal de desenvolvimento de produto está do outro lado, trabalhando sem desdobramentos claros”, afirmou.

O framework proposto integra quatro etapas em sequência: definição das arenas estratégicas — onde a empresa vai competir —, construção do portfólio de tecnologia, produto e mercado, priorização do pipeline de investimentos e, por fim, um processo de decisão por fases chamado stage gate, que protege o capital a cada etapa e orienta a tomada de decisão com base em viabilidade financeira.

A metodologia combina design thinking, da Escola de Design de Stanford, com a disciplina do stage gate, do pesquisador Robert Cooper. “A mistura da criatividade com a disciplina é o que conseguimos para desenvolver produtos de alto valor agregado. Não é obra do acaso”, disse Marcelo.

Fomento como acelerador

Olavo Gavioli, gerente de planejamento do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), parceiro do programa desde o início, apresentou o outro lado da equação: o crédito subsidiado para inovação.

Empresas com projetos estruturados conseguem acessar linhas da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) a menos de 8% ao ano — em um cenário de Selic a 14,5%. “Onde tem método, tem capital”, resumiu Olavo. Ele alertou, porém, que uma mudança recente nas regras da FINEP torna a estruturação ainda mais crítica: desde março deste ano, cada empresa pode celebrar apenas um contrato por ano-calendário, reunindo todos os projetos do período — com teto de R$ 30 milhões.

O BRDE também opera o programa Labs Innovation, que conecta corporações com startups para desenvolvimento de provas de conceito. Em 2025, quatro empresas participaram e todas chegaram a algum resultado concreto.

O case da FGM

A FGM Dental Group, fabricante joinvilense com mais de 400 produtos para odontologia e presença em mais de 100 países, participou da segunda turma do DPIN. O ponto de partida era uma resina para impressão 3D de próteses dentárias — produto existente no portfólio, mas isolado.

A provocação veio do próprio programa. “O professor olhou e disse: estou vendo que vocês estão focando só na resina. Mas, para usar essa resina, o que mais é preciso? Tem uma impressora, tem acessórios”, contou o pesquisador William Wiggers.

A equipe mapeou as dores dos clientes a partir do histórico de dois anos de grupos de WhatsApp de odontologia e impressão 3D, usando inteligência artificial para categorizar as informações. Identificou 15 problemas recorrentes — entre eles a falta de conhecimento para operar os equipamentos e a ausência de acessórios específicos no mercado.

A resposta foi o Evolution: um conjunto completo de equipamentos, acessórios, materiais e conteúdo educacional para impressão 3D na odontologia. O produto foi lançado em janeiro de 2026. No primeiro trimestre, o faturamento da linha cresceu quase cinco vezes em relação ao mesmo período do ano anterior.

“A gente estava muito focado naquilo que sabia fazer, mas não conseguia dar um passo para trás e olhar para um horizonte mais amplo. O programa entregou isso”, disse Wiggers.

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