O que o mercado imobiliário tem a ensinar sobre gestão a longo prazo

O mercado imobiliário brasileiro sabe construir. Sabe lançar, vender e entregar. O que ainda não aprendeu, segundo Richard Schwambach, é permanecer. E é nessa diferença que ele baseia a sua visão sobre o futuro do setor. Schwambach é CEO e sócio da All Wert Empreendimentos e apresentou suas ideias na ExpoGestão 2026, em Joinville, sobre “O futuro do viver”.
A lógica do destino
A ideia central de Schwambach é que o setor imobiliário precisa aprender com o que ele chama de destinos — lugares que as pessoas frequentam pelo que são, não pelo endereço. A Disney, construída no meio do nada em Orlando há 50 anos, é o exemplo que ele usa: “As pessoas não dizem que estão indo para Orlando. Dizem que estão indo para a Disney.”
Na sua leitura, o mercado imobiliário de alto padrão no Brasil segue o caminho oposto: constrói produtos pontuais, maximiza o valor de venda por metro quadrado e parte para o próximo empreendimento. O que fica para o morador é um condomínio, não uma experiência.
A virada, segundo ele, exige uma mudança de pergunta. Em vez de “o que posso construir aqui?”, a questão deveria ser “que tipo de vida as pessoas vão ter aqui daqui a 20 anos?” Isso implica planejar âncoras — esporte, gastronomia, natureza, serviços — e se responsabilizar por operá-las no longo prazo.
“É um pouco disso que a gente trabalha aqui. Trabalhamos com a questão da pessoa ressignificar o destino dela e dizer nós vamos para o All Resort, que, por um acaso, fica em Porto Belo, mas nós estamos indo para o All Resort, o novo destino”, diz o CEO.
O compromisso como diferencial
Schwambach defende que o comprometimento com o futuro muda até as decisões técnicas aparentemente menores. Como exemplo, citou o padrão de drenagem adotado no empreendimento: enquanto a exigência ambiental é de recorrência para dez anos, a empresa projetou para 100. “É um custo muito maior. Mas a gente é proprietário de parte do que existe lá dentro. Então, o problema é nosso também.”
Esse modelo — em que o empreendedor mantém a propriedade das áreas de lazer e serviços e cobra pelo uso por meio de um sistema de membership — cria, na visão dele, um alinhamento de interesses que o modelo tradicional não tem.
“Não é um futuro para depois de amanhã. Isso é uma realidade. Já temos isso funcionando dentro do All Resort. São dois negócios-chaves: o All Service e o All Resort Club Residence, do qual nós somos proprietários. Toda a estrutura de campo de golfe, piscina de ondas, concedemos o uso através de um sistema de membership para os nossos proprietários, com exclusividade”, explica o CEO.
A consequência é uma receita recorrente que cresce junto com a população do empreendimento — o que, segundo Schwambach, transforma a lógica financeira do negócio. “A incorporação é onde a gente começa. Não é ganhar dinheiro independente do que está lá. Tem que estar agregando serviço e qualidade para o nosso proprietário. E os serviços que a gente tem, que o nosso negócio, ele inicia pela incorporação, mas ele se consolida na recorrência.
Crescer sem perder o fio
Na parte da palestra dedicada à gestão, Schwambach mostrou que a empresa saiu de zero funcionários em 2020 para 216 em 2026.
“Todo mundo tem o hamster girando a maquininha. No todo está tudo certo, mas a gente sente falta das conversas”, disse. A solução que encontrou não é tecnológica nem processual: é reunir as pessoas com frequência para falar sobre valores, sobre problemas, sobre o que está travando.
“O menor problema é o primeiro, porque depois ele só aumenta. Isso é parte da nossa cultura: bota na mesa no primeiro dia.” Para ele, a cultura de uma empresa que cresce em velocidade alta só se sustenta se os líderes aprenderem a dar e receber feedback antes que os problemas se tornem estruturais.
A pergunta que ele deixou para os participantes da ExpoGestão não foi sobre o mercado imobiliário. Foi sobre qualquer empresa: “A nossa estrutura está ajudando ou dificultando a estratégia?” A resposta, disse ele, precisa ser revisitada o tempo todo — porque estrutura que serve para uma empresa de 20 pessoas raramente serve para uma de 200.


