
O impacto da confiança e da saúde mental nas organizações esteve no centro dos debates do Seminário de Pessoas da ExpoGestão 2026. O encontro reuniu lideranças e profissionais de recursos humanos para discutir os desafios da gestão de pessoas em um ambiente corporativo marcado pela pressão, pelas transformações constantes e pela necessidade de construir culturas mais saudáveis e sustentáveis.
A abertura do seminário destacou a importância de uma visão estratégica sobre desenvolvimento humano, cultura organizacional e liderança, reforçando que a gestão de pessoas deixou de ser responsabilidade exclusiva do RH e passou a integrar o cotidiano de todos os gestores.
O primeiro painel contou com a participação do médico e pesquisador Roberto Aylmer, especialista em burnout executivo e gestão da pressão. Em sua palestra “A Gestão da Confiança e a Gestão de Pessoas”, ele abordou como o excesso de demandas e a intensificação do ritmo de trabalho têm comprometido a lucidez, a capacidade de decisão e a saúde mental de líderes e equipes.
Segundo Aylmer, a confiança é o principal pilar das relações dentro das empresas e influencia diretamente o engajamento, a comunicação e a produtividade. “A liderança é a gestão da confiança. Quando ela se rompe, surgem o medo, o silêncio e o adoecimento”, afirmou.
O especialista explicou que mudanças estruturais no mercado corporativo, especialmente a partir da década de 1990, alteraram profundamente a relação entre empresas e colaboradores. A busca intensa por eficiência, redução de custos e aumento de produtividade ampliou a pressão sobre os profissionais e enfraqueceu vínculos de confiança nas organizações.
Durante a apresentação, Aylmer destacou que o medo passou a ser utilizado como ferramenta de gestão em muitos ambientes corporativos, gerando consequências como aumento do estresse, perda de engajamento e crescimento dos casos de burnout. Ele também alertou para o avanço dos afastamentos relacionados à saúde mental no Brasil e para os impactos da pressão contínua sobre executivos e trabalhadores.
Outro ponto central da palestra foi o papel da liderança na construção de ambientes psicologicamente seguros. Para o médico, gestores têm influência direta sobre o nível de confiança e segurança emocional das equipes. “O líder pode ser um fator de proteção ou de adoecimento”, ressaltou.
Desafios jurídicos na área do trabalho
A programação também contou com a participação da advogada e gestora de negócios Aline Mattos dos Reis, que contribuiu para o debate sobre saúde mental, relações de trabalho e os desafios jurídicos ligados ao ambiente corporativo contemporâneo.
Durante a apresentação, Aline alertou para o aumento expressivo dos afastamentos relacionados à saúde mental no país e para o crescimento das ações trabalhistas envolvendo assédio moral, burnout, ansiedade e depressão. Segundo ela, praticamente todas as ações trabalhistas atuais já incluem pedidos de indenização por danos morais relacionados ao ambiente de trabalho.
A especialista também chamou atenção para os impactos financeiros provocados pelo aumento dos afastamentos previdenciários e dos benefícios relacionados a doenças ocupacionais. Além das indenizações e possíveis sanções administrativas, ela destacou que empresas podem sofrer prejuízos em indicadores previdenciários, aumento de custos operacionais e desgaste reputacional.
Outro ponto enfatizado foi a necessidade de integração entre áreas como RH, jurídico, segurança do trabalho e lideranças. Para Aline, o enfrentamento dos riscos psicossociais exige uma atuação multidisciplinar e permanente dentro das empresas. “Não basta apenas cumprir uma obrigação documental. É preciso transformar a cultura organizacional”, reforçou.
Ao longo do seminário, os palestrantes reforçaram a necessidade de repensar modelos tradicionais de gestão, priorizando relações mais humanas, transparentes e sustentáveis. O encontro evidenciou que confiança, segurança psicológica e qualidade das lideranças são fatores estratégicos não apenas para o bem-estar das pessoas, mas também para a competitividade e longevidade das organizações.


