
Em um dos momentos mais aguardados e reflexivos do primeiro dia da ExpoGestão 2026, o médico psiquiatra e consultor organizacional Roberto Aylmer defendeu que o trabalho precisa voltar a ser um agente de dignidade e desenvolvimento humano — e não uma fonte de adoecimento.
Com uma apresentação que reuniu dados estatísticos, reflexões sobre liderança e relatos pessoais, Aylmer chamou a atenção para os impactos econômicos e sociais dos transtornos mentais nas organizações. Segundo dados do INSS apresentados pelo palestrante, 546 mil pessoas foram afastadas do trabalho por questões relacionadas à saúde mental no último ano. Em 2019, antes da pandemia, esse número era de 207 mil.
“Pior é que a tendência é que esse cenário se torne ainda mais alarmante no próximo ano, pois a saúde mental é complexa”, afirmou.
O psiquiatra também destacou pesquisa do instituto Ipsos que aponta a saúde mental como a principal preocupação de 52% dos brasileiros — índice significativamente superior aos 18% registrados em 2018.
Para Aylmer, o tema deixou de ser apenas uma questão de empatia e passou a representar um desafio estratégico para as empresas.
“Não é apenas porque a gente se importa com o ser humano. É uma questão financeira e econômica de base. O transtorno mental mexe com o futuro das organizações”, disse.
Liderança e ambiente corporativo
Ao se dirigir a gestores, coordenadores e diretores presentes, o consultor ressaltou o impacto da liderança no ambiente de trabalho e defendeu atitudes simples de valorização e reconhecimento entre equipes.
Segundo ele, práticas como agradecer colegas de outras áreas e destacar comportamentos positivos contribuem para ambientes mais saudáveis e produtivos.
“Decida marcar o que é bom, falar das coisas que funcionam. Quando você foca no interesse positivo, você muda o ambiente”, pontuou.
Aylmer também alertou para os efeitos da cultura do cancelamento e das reações impulsivas nas redes sociais. “Todo dia alguém coloca uma bola quicando na sua frente para você ‘lacrar’ no WhatsApp ou no Instagram. Qual é o bom combate?”, questionou.
Durante a palestra, o especialista reforçou que o verdadeiro valor profissional está nas relações construídas ao longo da trajetória.
“O teu valor não está no contracheque. Está no legado que você deixa. Está na conexão com as pessoas com quem convive”, afirmou.
Relato pessoal e equilíbrio emocional
Em um dos momentos mais emocionantes da apresentação, Roberto Aylmer compartilhou a experiência de enfrentar um câncer severo, episódio que o levou a repensar o equilíbrio entre trabalho, saúde e vida pessoal.
Ao encerrar a palestra, deixou uma recomendação prática aos profissionais que convivem com rotinas estressantes: criar um “trajeto mental” de transição entre o trabalho e a vida familiar.
“Chegar em casa tem que ser a melhor parte do seu dia. Recupere a sua humanidade antes de entrar pela porta. Deixe o estresse fora e chegue com energia para abraçar e demonstrar afeto”, aconselhou.
O palestrante também reforçou a importância de hábitos simples, como hidratação, atividade física e convivência familiar, como pilares para a preservação da saúde mental.


