
A inteligência artificial não está apenas automatizando tarefas. Ela está encurtando o caminho entre uma pergunta e uma resposta, entre um problema e suas alternativas. E isso começa a colocar em xeque uma parte menos discutida da transformação: a maneira como as empresas decidem.
A tecnologia avançou. A decisão também?
Dados estão disponíveis em tempo real, ferramentas de IA cruzam informações em segundos e equipes têm acesso a recursos antes concentrados nos níveis mais altos da organização. A capacidade de analisar se distribuiu. A autoridade para decidir nem sempre.
O 2026 CEO Study, do IBM Institute for Business Value, mostra que CEOs estão repensando estruturas, papéis e mecanismos de decisão. 79% dos executivos pesquisados afirmam estar descentralizando a tomada de decisão à medida que a IA ganha espaço nas organizações.
Gary Cohn, vice-presidente do conselho da IBM, resume a mudança: “O que a IA muda é a velocidade e as consequências da liderança.” A questão é que uma organização pode produzir análises em segundos e ainda depender de sucessivas aprovações para agir. Se a decisão continua percorrendo os mesmos caminhos de antes, parte do ganho proporcionado pela tecnologia fica pelo caminho.
Nem toda decisão precisa chegar ao topo
É aqui que a provocação ganha força: quais decisões realmente precisam chegar ao CEO?
Um princípio associado à gestão de Jeff Bezos na Amazon ajuda a ilustrar esse ponto: decisões reversíveis podem ser tomadas com mais autonomia, enquanto escolhas difíceis de desfazer exigem maior análise e aprovação. Nem toda decisão, portanto, precisa chegar ao topo.
A McKinsey chega a uma conclusão complementar. Em pesquisa com mais de 1.200 gestores, a consultoria identificou que profissionais que têm autonomia para decidir e recebem orientação adequada dos líderes são 3,2 vezes mais propensos a considerar as decisões delegadas simultaneamente rápidas e de alta qualidade.
Descentralizar não significa abrir mão da governança. Significa colocar a decisão onde existem informação, contexto e responsabilidade para tomá-la.
O novo papel do CEO
Se a IA amplia a capacidade de análise da organização, talvez o principal executivo precise dedicar menos energia a ser o ponto final das decisões e mais a criar as condições para que boas escolhas aconteçam em diferentes pontos da empresa.
Estratégia, alocação de capital e decisões de maior risco continuam exigindo o olhar do topo. Mas escolhas mais próximas da operação e do cliente podem não precisar percorrer toda a hierarquia.
A liderança deixa de ser apenas sobre decidir bem. Passa também a ser sobre construir uma empresa capaz de decidir bem sem depender sempre do CEO.
Essa pode ser uma das grandes vantagens competitivas da era da IA: não ter apenas tecnologia capaz de produzir respostas, mas uma organização preparada para transformá-las em ação.
Afinal, se a empresa já consegue pensar de novas maneiras, ela também precisa aprender a decidir de novas maneiras.
Fontes:
IBM Institute for Business Value — 2026 CEO Study: Rewiring the C-suite
Estudo da IBM
IBM Newsroom — IBM Study: CEOs are Reshaping C-suite Roles for the AI Era
Divulgação oficial do estudo
McKinsey & Company — Three keys to faster, better decisions
Pesquisa sobre tomada de decisão
Walter Longo — entrevista “Novo Mundo Digital”
Entrevista com Walter Longo


